A hipocrisia é o camaleão de qualquer argumento.
- Cyro Morais
- Posted:4 months ago
Os cachos se vão, vítimas do esfaimo canino;
e são mordidos e engolidos, durante o hiato de cada murmúrio de ledice.
A raposa, obviamente, não esconde seu amor pelas uvas. Pelo contrário, quase o declama em grito.
Contudo, uma uva negra, pequena e machucada, permanece na videira. Não por desejo seu, mas do orgulhoso e vulpino canídeo.
O fruto tenta, de toda forma, roubar a atenção da vulpes para si. Exala odores adocicados, ruboriza-se e umedece-se. Usa de todas as suas artimanhas para seduzir sua presa transvestida de predador. Mas o desdém se mostra blindado.
Rejeitada, lamenta em silêncio.
Satisfeita, a raposa toma seu caminho, abandonado a videira quase nua.
Não é necessário muito tempo para que seu pequeno fruto desça ao chão, assim como não é necessário muito tempo para que ele se torne um novo broto de videira.
Os dias se passam, as semanas se passam, e, rapidamente, os anos se passam.
A ultima das uvas dá origem a toda uma nova geração, em uma alta parreira. E quem diria… mais alta do que qualquer raposa.

- Posted:5 months ago
o relento e o vento
- Posted:5 months ago
Quando se tem a outra metade,
as árvores secas parecem felizes, como que trajassem pouca roupa só pelo calor que o dia tem.
O calor, por sua vez, até para os amantes da neve, é como um estepe de abraço que nos acompanha durante o dia, antes da noite chegar e vermos quem amamos.
Os sonhos são limitados à companhia eterna de uma certa pessoa, seja sonho bom, seja um sonho não tão bom.
Sofá é lugar para amar, cozinha é lugar para amar, cama é lugar para amar, claro, todo lugar, escurinho ou não, se torna um bom abrigo.
Quando se tem essa sorte, a perspectiva muda e o pensamento positivo impregna na pele e na boca. O tempo para estresse é contado com pressa no relógio e o tempo livre é só amor.
Quando nos damos como metade, nos damos conta que algo sempre nos faltou.

- Posted:6 months ago
eu que nem gosto de cálculos tanto assim,
fui lá e me dividi,
metade pra você, metade pra mim.

- Posted:6 months ago
“homem ao mar”, dizia a sereia ao puxar-me para si.
se cinismo ou candura, nunca saberei,
o fato é que hoje, sem ao menos resistir, sufoco em água,
respirando apenas seu beijo.

- Posted:6 months ago
um sorriso mordido, desses de canto de boca,
soletrava um inaudível “venha”, por cima de mim, enquanto o seio respirava forte.
silente, ou quase.
olhos cansados, o mesmo sorriso, e um cheiro bom de perfume e suor.

- Posted:6 months ago
por trás do cartão postal,
há saudade, langor e frustração.
tudo vai mal, mas não no cartão postal.
-
em sua ortografia ele mente sorrisos,
admite a saudade, como se por educação.
“queria vocês aqui”, ou coisa do gênero.
-
dita a vida,
versa uma realidade inversa, e impressiona.
deveria ser ator, roteirista,
mas trabalha em um dos guichês da UCI.
-
no cartão,
a Octávio Frias de Oliveira ilustra seu mundo,
frente às falácias, do outro lado do fino papelão,
o júbilo teatral que a caneta tão firmemente conduz esconde o desistente enrustido.
-
pois lá, em seu apê paulistano, passa frio,
e, nessas noites,
apenas o chuveiro parece não chorar.
-
em desvaneio, quase sorri,
já que nada vai mal - por fim - em seu cartão postal.
- Posted:8 months ago
te acalma, menina
que a alma precisa de ar,
a calma acalma a alma, tal a âncora em alto mar.

- Posted:8 months ago
olhei o copo meio vazio, jurava estar meio cheio.
enfim, pouca água.
mergulhei como num poço sem fundo, até minha cabeça sentar-se à base.
morro afogado, e com tanta sede.

- Posted:8 months ago