Garoa na ponta dos cigarros

  • April,10th,2014 at 3:01 AM

Grisalho minha alma à cada maço, soprando como fumaça todo o meu espírito. Talvez porque meu corpo já não queira mais se contrair, diminuir e ser contrariado. Uma parte de mim, pequena, que seja, merece se esvair polimorfa como nuvem. Merece ilustrar e incitar a imaginação alheia - alguém precisa fazê-lo, claro - ou, no mínimo, tirar alguém de sua zona de conforto. Há tantos fumantes passivos por aí, tantos pulmões e cânceres em potencial. Meu corpo é tédio em carne mas eu sou metacorpóreo. Eu sou fumaça branca tanto quanto rosada pele. Essa fração que me cabe e preenche o peito não é nada senão o prelúdio de uma neblina densa e perene aos olhos cegos daqueles que ficam enquanto me esfarelo. Até gosto, fumo meu corpo e baforejo aos ventos.

A mítica manada dos homens livres

  • April,7th,2014 at 12:28 AM

Negado
ao nêgo,
ao gado,
que corre
calado
gritando pra dentro,
em pranto silente.

Negrume d’estrume,
chorume aos lençois que freiam-te boca.
freáticos de choro,
sorriso mulato, dissimulado de mundo.

Teu pulso se tornara o compasso do meu dia. Um calendário, um tarol. Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, pés, metros, quilômetros, milhas terrestres, nós. Abdiquei. Media o mundo com o rufar do teu seio.

Mas por fim, bem… no fim havia silêncio por todo o corpo. Pouco importava se de noite eu sentaria meu ouvido à tua camisa desabotoada, pois o som que se ouvia era apena o eco do vazio. Não havia futuro, nem pulso. Não havia tempo, nem vida. Quando escolhi você como dama do tempo, sem prever que o tempo lhe bateria a porta, me condenei à grisalha e momentânea eternidade. 

O pulso d’ela se tornara o compasso de meu dia.

Começava, porquanto, a ignorar os segundos, os minutos, as horas, os pés, os metros, os quilômetros. Media o mundo com o rufar daqueles seios, intentando precisão em inconstantes bulhas.

E se me atrasava, ah… pouco importava.

Photo of the Day

  • December,30th,2013 at 11:33 PM

(via vasculhei)

Sorri outono

  • December,1st,2013 at 4:50 AM

O silêncio silabado de boca entreaberta/mordiscada flertava com os pelos finos e atentos de meu ouvido esquerdo. A calidez - transvestida de calefrio - enrugava a pele, empinava o pelo e contraía a alma. Um murmurinho não catalogado na gramática que uso, mas que tinha um significado tão claro que nem me preocupei com nada. Lembrava o cicio de outono, do vento que vem terno e leva o que não vinga.

Sim, aquele sopro baixinho certamente me jogou fora várias folhas velhas.

Sempiternura

  • November,26th,2013 at 2:23 PM

guardei o tempo sob a íris cansada,

inclinei o corpo para frente

só pra pisar no futuro antes da hora

estacionei os pés no local mais distante, e advinha,

lugar algum é longe o suficiente.

longe no tempo, e ainda tão perto de você.

imerso sob o pó de estrelas mais antigas do que qualquer ponteiro, e lá está seu rosto.

Afôgo

  • November,19th,2013 at 12:09 PM

Eu poderia ler teus lábios, de longe.

Mas nunca saberia do timbre rouco de quem há pouco soluçava triste.

Interpretaria, assim, todo arrepio como bom presságio,

Quando, por verdade, sem ideal afago,

congelava por entre o meu abraço.

Lobos de vidro

  • August,5th,2013 at 2:43 AM

A brisa depõe contra mim.

Vem do mar, onde uns se aventuram, 

passeia pelos cômodos do apartamento, onde ninguém o faz,

e ganha o significado que bem me convém.

Alcateia de vidraças entreabertas

uivando sua metalinguagem de sonhos,

nostalgias e tudo mais o que minha madrugada possa trazer.

Joaquim e o vento

  • June,27th,2013 at 5:01 AM

Venho soprado por tormentas tropicais,
dessas previsíveis que ninguém ousa prever.
Casa cai ao mar, e o entulho, flutuando tão náufrago quanto eu,
me leva à paz extemporânea de chegar em ti, pequena ilha.
-
Estaciono o corpo cansado sob as areias e construo nova morada,
lavo as velharias em novas águas, me aconchego à nova praia, e, 
aos poucos, 
enraízo os pés à toda voluptuosa flora que por lá encontro.
-
Não prevendo, claro,
mais uma vez,
o suspiro do tempo.

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Dois lobos.
Qual alimentarei hoje?
Quem?

Ahoy

Tudo o que escrevo tem um pouco de mim e muito do mundo.

Tudo o que o mundo tem é um pouco de mim e muito do que escrevo.

O triste nisso é a falta de interação em ambos.

Esqueça de mim, mundo. Que farei o mesmo contigo.

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